domingo, 26 de março de 2017

2090: O ano da extinção

Fabricio Rebelo

À medida que o projeto de revogação do Estatuto do Desarmamento avança, com cada vez maior apoio de diversos segmentos sociais, maior também é o esforço dos grupos antiarmas para mantê-lo vigente. A cada novo debate sobre o assunto, desvela-se o hercúleo esforço para republicar teses contrárias ao direito à autodefesa, as mesmas que já foram tantas vezes desconstituídas, mas que seguem repetidas como verdades incontestáveis.

Um dos argumentos mais invocados pelos adeptos do desarmamento civil é a teoria de que, desde que implementado no país, mais de cem mil vidas teriam sido salvas. O número já variou bastante, mas se fixou em 160 mil no Mapa da Violência 2016 (estudo que vem guiando as argumentações), a partir de um critério de projeção homicida e confronto com a efetiva constatação de óbitos intencionais.

A tese foi representada por um gráfico publicado no Mapa, contendo uma linha ascendente projetada ao infinito, que representaria a estimativa de assassinatos com arma de fogo, caso mantido o ritmo de crescimento deles até 2003, contabilizado em 7,8% ao ano. Assim, se em 2003 foram mortas 36.115 pessoas com o uso desse meio, em 2004 deveriam ser 38.932; em 2005, 41.969, e assim sucessivamente, sempre com aumento de 7,8% em relação ao ano anterior. Como os números efetivamente registrados foram menores, o mérito dessa contenção seria do estatuto, e a diferença entre a previsão e a realidade seriam as vidas salvas.

(Mapa da Violência 2016 - p. 65 e 66)

O absurdo estatístico dessa projeção linear, tantas vezes desmascarada nos mais variados espaços de debate, foi bem resumido em excelente artigo para o Estadão, assinado pelo consultor político Márcio Leopoldo Maciel. As conclusões desse texto, entretanto, são ainda modestas perto do que realmente representa a “conta” desarmamentista, pois ali não se levou em consideração o ritmo do crescimento populacional brasileiro e o impacto nele causado pelos assassinatos que aquela linha infinita pretende traduzir.

A população brasileira para o ano de 2016 foi estimada pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 207.229.234 pessoas, com um crescimento vegetativo da ordem de 0,8% (oito décimos percentuais) ao ano - já em tendência de queda. Com números de homicídios anuais mantidos na faixa de 60 mil, esse crescimento não seria, de fato, por eles afetado, sendo viável admitir que a taxa de incremento populacional continuasse positiva ao longo do tempo.

A questão, todavia, é que, com homicídios por arma de fogo crescendo, como propôs o Mapa da Violência, a uma taxa de 7,8% ao ano, já em 2057 aquela linha ao infinito apontaria para o espantoso quantitativo anual de 2.084.974 registros(!), o que, isoladamente, já representaria inegável impacto no crescimento demográfico, tornando-o negativo (vide gráfico abaixo). Ou seja, daqui a quarenta anos, mesmo se desconsiderássemos todas as outras formas de homicídio, apenas os cometidos com armas de fogo já alcançariam, anualmente, mais de 8% da população brasileira.

E fica muito pior. Prosseguindo nos exatos mesmos ritmos de crescimento, tanto dos homicídios projetados, quanto da população, chegaríamos, no ano de 2090, a 24.861.070 assassinatos com arma de fogo. O problema é que, nesta época, com já milhões de homicídios anuais assim praticados, a população, por eles verdadeiramente dizimada, em 2089 já seria de apenas 18.223.843 pessoas. Todos, assim, estariam mortos em 2090.


Como facilmente se percebe com um mínimo de esforço analítico, acreditar na teoria das vidas salvas pelo desarmamento no Brasil implica considerar que, não fosse ele, em menos de um século nossa população teria alcançado a pura e simples extinção. E isso causado apenas pelos homicídios por arma de fogo que são ali projetados.

Não é, assim, uma tese apenas falsa e dotada de flagrante desonestidade intelectual. É puramente absurda. Uma conta que, em vez de pautar as matérias veiculadas pela grande mídia, deveria ser apenas risível. Mas, como se tem visto, é nisso que querem que você acredite, inclusive sob o rótulo de “mais sério estudo já feito sobre o tema”. Imagine se não fosse.

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