sexta-feira, 27 de abril de 2018

Que tiros são esses?

Os debates sobre desarmamento no Brasil por vezes parecem se assentar em uma guerra retórica cíclica, como um “loop” infinito, no qual os argumentos vão sendo lançados, rebatidos e substituídos. Os defensores das restrições às armas divulgam uma nova tese, quase sempre travestida de estudo, ela é desconstituída por uma análise técnica e, na sequência, substituída por uma nova linha argumentativa, que rapidamente segue o mesmo roteiro. E, não raro, uma tese já tantas vezes desmontada volta com nova roupagem, começando tudo de novo.

Esse ciclo permite observar fenômenos no mínimo curiosos, deixando claro como a narrativa vai se amoldando aos interesses ideológicos de momento, sem compromisso com o que já se disse. Foi exatamente o que ocorreu com a repercussão assassinato da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco.

Durante os últimos anos, um dos argumentos mais repetidos pelos adeptos da ideologia antiarmas foi o de que os criminosos se abastecem de armas desviadas do mercado legal. A tese é a de que o cidadão comum que compra uma arma, cedo ou tarde, a terá roubada ou furtada, passando esta a ser usada por criminosos. Para comprovar o que afirmam, dizem que o rastreamento das armas apreendidas com bandidos revelaria a lícita origem remota delas.

A teoria já foi amplamente desconstruída. Ela não se sustenta quando se constata que o rastreamento de armas em nosso país só é feito pelo número de série, o que deixa sem qualquer busca por origem aquelas que não têm essa característica ou que tiveram o número suprimido. Nos livros Articulando em Segurança: contrapontos ao desarmamento civil (Rebelo, 2016) e Mentiram para Mim Sobre o Desarmamento (Quintela e Barbosa, 2015), essa farsa é pormenorizadamente desconstituída.

Talvez nem fosse preciso. Afinal, a pura percepção comum já seria suficientemente para acabar com essa fantasia. Se são fuzis, metralhadoras e pistolas nos calibres 40, 45 e, sobretudo, 9mm o que mais se vê com os criminosos, não é necessário esforço para eliminar a possibilidade de sua origem lícita, pois artefatos com essas características nunca foram comercializados para o cidadão comum.

E há mais: a própria argumentação desarmamentista acaba por desconstruir a tese que defendem.

Após a morte violenta da vereadora Marielle, os analistas vinculados ao espectro progressista, no qual o desarmamento se insere, se apressaram para atribuir a autoria do crime a maus policiais, alvo recorrente de críticas ferrenhas e denúncias da vítima. Nesse processo, culminaram por resgatar um levantamento atribuído ao Instituto Sou da Paz, apontando que a maior parte da munição apreendida com criminosos seria de fabricação nacional e de uso restrito das polícias e Forças Armadas (https://goo.gl/a7qf2x), o que seria um indicativo de que é o desvio delas de tais corporações que abastece o crime.

E é justamente aí que as teses se anulam. Se as munições mais apreendidas com o crime são as de uso restrito, como podem ser as armas originárias do comércio civil comum que abastecem os criminosos? Não podem. Por mais que se tenha apego a ideologias transmutantes, revólveres 38 e pistolas 380 – as únicas acessíveis ao cidadão comum – não conseguem magicamente se transformar em calibres maiores. Isso é um fato.

Assim, com apregoa o adágio, das duas, uma. Ou não são as armas com origem legal que abastecem o crime (hipótese amplamente mais factível), ou não são munições restritas as que mais nele se usa. As duas coisas não podem coexistir. A não ser, claro, que os especialistas de plantão queiram convencer você de que um bandido rouba um revólver 38 do cidadão e atira com ele usando munição 9mm. Seria muito interessante ouvir os desarmamentistas explicarem que tiros são esses.